O “reset” civilizacional começa antes do colapso
Paulo P Nascentes
Da promessa moderna de liberdade, igualdade e fraternidade à normalização da fome e do abandono, a crise contemporânea exige mais do que ajustes: pede instituições capazes de reaprender a servir à vida comum.
A história não avança em linha reta. A Idade Média, frequentemente resumida pela expressão “Idade das Trevas”, também abrigou universidades, debates filosóficos, técnicas agrícolas e formas comunitárias de organização. Ainda assim, a imagem do obscurantismo permanece útil como alerta: sociedades podem possuir conhecimento e, ao mesmo tempo, restringir seu acesso, perseguir a dúvida e converter instituições em instrumentos de privilégio. O Renascimento e o Humanismo recolocaram o ser humano, a investigação e a criação no centro da vida pública; séculos depois, liberdade, igualdade e fraternidade deram linguagem política à esperança de que nenhum nascimento deveria determinar o destino de alguém.
A passagem das oligarquias para a democracia representativa ampliou direitos e permitiu que milhões participassem da escolha de governos. Mas, votar periodicamente não esgota a cidadania. A democracia participativa acrescenta conselhos, audiências públicas, orçamento participativo, associações de bairro, sindicatos, conferências e iniciativas populares. Quando esses canais funcionam, uma comunidade pode decidir, por exemplo, se um terreno abandonado deve virar posto de saúde, creche, moradia ou praça. Quando não funcionam, a política se fecha em gabinetes e a população só é chamada a ratificar escolhas já feitas.
O problema atual não é a ausência de capacidade técnica, mas a ruptura entre capacidade e finalidade. É como se o “computador” das instituições estivesse em funcionamento, porém executando um programa defeituoso. Na saúde, uma cidade pode ter equipamentos avançados e, ainda assim, manter pessoas durante meses em filas evitáveis por falta de atenção básica e integração de dados. Na educação, redes podem comprar plataformas digitais enquanto bibliotecas permanecem fechadas, professores trabalham sem estabilidade e estudantes chegam à escola com fome. Na ciência, descobertas capazes de salvar vidas podem ser subordinadas à desinformação ou ao lucro imediato. Na arte e na filosofia, espaços de imaginação e crítica são tratados como luxo, justamente quando a sociedade mais precisa compreender a si mesma.
A falha mais grave é moral e política: perdemos a fraternidade como princípio organizador. A liberdade sem condições materiais vira privilégio; a igualdade apenas declarada convive com abismos de renda, tempo, voz e segurança. A riqueza depende do trabalho de quem cultiva, transporta, cuida, constrói, ensina, pesquisa, limpa, programa e atende. Entretanto, trabalhadores frequentemente recebem uma parcela desproporcionalmente pequena do valor que ajudam a criar. Enquanto alguns acumulam excedentes, outros escolhem entre alimentação, aluguel, remédio e transporte. Essa contradição se torna ainda mais cruel quando a fome, a miséria e a indigência cultural deixam de causar espanto.
Um novo Renascimento não pode ser reservado a cortes, academias ou centros econômicos. Precisa alcançar periferias urbanas, comunidades rurais, povos tradicionais, crianças, idosos e pessoas historicamente afastadas das decisões. Isso implica financiar saúde preventiva, escola pública integral, cultura local, pesquisa aberta e proteção social; tributar de modo mais justo; garantir transparência aos orçamentos; e transformar participação popular em poder real. Um exemplo seria vincular parte do investimento municipal a assembleias territoriais com informação acessível e prestação de contas. Outro seria abrir escolas nos fins de semana para bibliotecas, oficinas de arte, ciência cidadã e formação política apartidária.
Somos subjetividades distintas aprendendo a viver em conjunto. Nossas origens, etnias, culturas e crenças são plurais; nossa espécie é uma só. Se um dia a humanidade dialogar com outras formas de vida no cosmos, antes precisará aprender a dialogar consigo mesma. A paz não nasce do silêncio imposto, mas da tribuna livre, do dissenso sem desumanização e da justiça que impede que a dignidade seja sonegada. O inevitável “reset” civilizacional não precisa ser uma catástrofe: pode ser uma escolha consciente, iniciada sempre que uma instituição corrige seu propósito e sempre que um cidadão reconhece no outro não um rival descartável, mas um semelhante indispensável.
Manual para reiniciar o mundo
Paulo P Nascentes
Não desligaremos as estrelas.
Elas não têm culpa
dos nossos circuitos de fome,
das engrenagens que moem o pão
antes que a mesa seja posta.
O erro está no programa antigo:
uma linha de medo,
duas de ganância,
séculos de portas com senha
guardando o saber de todos.
Já houve manhãs chamadas Renascimento,
mas a luz entrou por poucas janelas.
Desta vez, abriremos a casa inteira:
a escola, o hospital, o laboratório,
o teatro, a praça e a oficina.
Que ninguém seja arquivo corrompido,
nome apagado da lista,
direito escrito a lápis
e negado a tinta.
Que a mão que planta reconheça
a mão que ensina,
a mão que cura,
a mão que constrói a ponte.
Somos muitas cores na mesma aurora,
muitas preces, dúvidas e memórias,
muitos mapas sobre a única casa.
Não há estrangeiro no oxigênio,
nem fronteira na chuva,
nem raça além da humana
sob o teto móvel da Terra.
Se um dia outra inteligência
bater à porta do céu,
que não nos encontre repartindo ruínas,
mas reunidos na tribuna livre,
capazes de ouvir sem ajoelhar,
de discordar sem destruir.
Então reiniciaremos o mundo
não com o punho sobre um botão,
mas com milhões de mãos abertas.
O futuro carregará devagar,
tela clara depois da longa noite,
e a primeira palavra do novo sistema
será: nós. Desatados os nós, ainda resta a esperança de reatarmos o nós!
Manual para reiniciar o mundo — versão para declamação
[Começar em voz baixa, com pausas longas. Aumentar gradualmente a intensidade até o chamado final.]
Não.
Não desligaremos as estrelas.
Elas não têm culpa
dos nossos circuitos de fome,
das engrenagens que moem o pão
antes...
antes que a mesa seja posta.
O erro não está no céu.
O erro não está na Terra.
O erro está no programa antigo:
uma linha de medo,
duas linhas de ganância,
séculos — séculos! —
de portas fechadas por senha,
guardando, para poucos,
o saber que pertence a todos.
Já houve manhãs chamadas Renascimento.
Mas a luz...
a luz entrou por poucas janelas.
Desta vez, não!
Desta vez,
abriremos a casa inteira:
a escola!
o hospital!
o laboratório!
o teatro, a praça, a oficina!
A casa inteira.
Para todos.
Para todas.
Que ninguém seja arquivo corrompido.
Ninguém!
Que nenhum nome seja apagado da lista.
Que nenhum direito seja escrito a lápis
e negado a tinta.
Que a mão que planta
reconheça a mão que ensina.
Que a mão que ensina
reconheça a mão que cura.
Que a mão que cura
reconheça a mão que constrói a ponte.
E que todas reconheçam:
somos nós que sustentamos o mundo.
Somos muitas cores na mesma aurora.
Muitas preces.
Muitas dúvidas.
Muitas memórias.
Muitos mapas...
sobre a única casa.
Não há estrangeiro no oxigênio.
Não há fronteira na chuva.
Não há raça além da humana
sob o teto móvel da Terra.
Se um dia outra inteligência
bater à porta do céu...
que não nos encontre
repartindo ruínas.
Que nos encontre de pé,
reunidos na tribuna livre,
capazes de ouvir sem ajoelhar,
de falar sem silenciar,
de discordar
sem destruir.
Então, sim:
reiniciaremos o mundo.
Não com o punho fechado
sobre um botão.
Mas com milhões — milhões! —
de mãos abertas.
O futuro carregará devagar.
Devagar...
como a luz depois da longa noite.
E quando a nova tela se acender,
a primeira palavra do novo sistema
não será “eu”.
Será NÓS!
Diminuir o ritmo; encerrar com firmeza.
Desatados os nós
do medo,
da fome,
da indiferença,
ainda resta a esperança.
Resta a coragem.
Resta a palavra.
Resta a mão aberta da poesia coletiva:
Resta-nos reatar
o NÓS!