21/05/2025

TERAPIA TRANSPESSOAL: o bem-estar ante a angústia contemporânea

 

Create an illustration that captures the theme of transpersonal therapy and its pathways to well-being amidst contemporary anguish. The illustration should reflect the multifactorial nature of existential anguish, including feelings of emptiness, fatigue, and loss of appetite. Incorporate elements that represent the integration of spiritual and transcendental aspects with traditional psychology methods. Use symbols from various spiritual traditions such as Buddhism, Hinduism, Sufism, and Jungian psychology. Include visual representations of meditation, mindfulness, holotropic breathing, guided visualization, dream work, and the dynamic energy of the psyche. The mood should be contemplative and hopeful, with colors that evoke calmness and introspection. The style should be holistic and multidimensional, emphasizing the connection between body, mind, and spirit. Consider using soft, flowing lines and harmonious color palettes to convey the delicate nature of mental health and the compassionate approach of transpersonal therapy.

Terapia transpessoal: o bem-estar ante da angústia contemporânea

Paulo P Nascentes[1]

“A vida não é só isso que se vê, é um pouco mais, que os olhos não conseguem perceber, e as mãos não ousam tocar, e os pés recusam pisar.” (Paulinho da Viola. Sei lá, Mangueira).


        Angústia existencial

A angústia difusa que acomete o sujeito contemporâneo é multifatorial e pode estar ligada a uma falta de sentido para a vida. Isso causa um vazio indefinido, sensação de desânimo, cansaço inexplicável, perda de apetite ou voracidade por certos alimentos, diminuição ou exacerbação da libido. Resistente a tratamentos medicamentosos, a peregrinação passa por consultórios médicos e prossegue nas diferentes modalidades de terapias e psicoterapias, em tentativas de alívio muitas vezes infrutíferas. Profissionais de saúde, quer na instância pública ou privada, oferecem tratamentos, por vezes regidos por protocolos mais ou menos rígidos e, pior, sempre o mesmo para uma infinidade de sujeitos, desconsiderando peculiaridades, a forma de adoecimento de cada um. Para apimentar a questão, fica a pergunta: como não adoecer numa sociedade ela mesma doente? Diante de circunstâncias dolorosas, como alcançar “os mais altos fins da existência”, conforme palavras de Hahnemann?

            É preciso considerar a subjetividade do sujeito em sua expressão única. Do contrário, como lidar com sintomatologia tão diversa, refratária a classificações e protocolos? E a multidimensionalidade da nossa manifestação? O que nos iguala, o que nos faz tão peculiares? O tema exige olhar cuidadoso pela delicadeza que envolve a saúde mental. A abordagem transpessoal contribui com as demais modalidades de tratamento da angústia existencial? Agrega vantagens, enfrenta limitações? E a escolha do cliente? Não seria fundamental a confiança no profissional e na ética dele esperada? Cuidar não é só tratar sintomas, mas também olhar compassivamente violências, como o racismo, dito estrutural, o machismo ancestral, os estigmas da desigualdade, da falta de meios dignos de subsistência, tudo o que fere o humano na sua inteireza.

   A terapia transpessoal pretende integrar aspectos espirituais e transcendentais da experiência humana com os métodos tradicionais da psicologia. Considera, portanto, o ser humano em sua totalidade, inclui as dimensões físicas, emocionais, mentais e espirituais.

Bases Teóricas

Suas bases teóricas assentam-se em diversas tradições espirituais e filosóficas, como o budismo, hinduísmo, sufismo, e também a psicologia junguiana. Incorpora conceitos da psicologia humanista e existencial, além de teorias de desenvolvimento espiritual e estados alterados de consciência. Ken Wilber (2007, 2016) é um de seus teóricos mais conhecidos, ao delinear a integração da ciência e da espiritualidade. Vale lembrar que “o processo de individuação conduz o sujeito a ser quem de fato ele é pela integração da sombra e dos demais aspectos inconscientes. Longe de ser individualismo egoísta, a pessoa se torna "mais atenta e cuidadosa com o semelhante” (Nascentes, P., 2023, in: Wunderlich, M. e Andréia Roma, 2023).

Tipologia

Entre as várias abordagens da terapia transpessoal, destacam-se:

  • Meditação e Mindfulness: técnicas que promovem a consciência plena e a conexão com o momento presente. Sofrimento por antecipação caracteriza a ansiedade. A conexão com o presente, pela consciência na respiração, por exemplo, costuma aliviar diversos sintomas.
  • Respiração Holotrópica: método que utiliza padrões de respiração para acessar estados alterados de consciência. Esse tipo de respiração só deve ser feito sob a orientação de um especialista que a tenha vivenciado ele mesmo.
  • Visualização Guiada: uso de imagens mentais para explorar e transformar aspectos internos. C-G. Jung usava a imaginação criativa com seus pacientes.
  • Trabalho com Sonhos: análise de sonhos, sem interpretá-los, permite acessar o inconsciente e promover a integração de conteúdos internos. Antes de qualquer análise, porém, muito se consegue nas sessões de arteterapia. Os símbolos presentes nos desenhos e o uso de cores em pinturas tendem a facilitar e enriquecer o diálogo terapêutico.
  • Dinâmica Energética do Psiquismo: desenvolvida por Theda Basso e Aidda Pustilnik (2012), a Metodologia da Dinâmica Energética do Psiquismo (DEP) enfatiza a consciência no corpo pela respiração e movimentos corporais conscientes. Proporciona o desbloqueio de impregnações e crenças nos campos pessoal, familiar, social e cultural. Facilita a percepção flutuante, a escuta do silêncio, instância onde reside o Ser essencial. Outros recursos são a meditação com a espiral do desenvolvimento e com os campos informacionais expressos pelos triângulos ascendentes e descendentes. Findo o percurso de 20 passos, o estudante se torna apto a atingir e sustentar o estado de Presença no Ser essencial.

Pontos positivos

  • Integração Holística: ao considerar o ser humano em sua totalidade, promove um equilíbrio entre corpo, mente e espírito. É como se essas instâncias do sujeito passassem a dialogar entre si, mediadas pelo terapeuta, que o conduzirá ao Terapeuta Interno.
  • Desenvolvimento Espiritual: facilita o crescimento espiritual e a conexão com aspectos transcendentais da existência. No caso do Percurso Básico da DEP, esse crescimento é acompanhado em sessões periódicas com um terapeuta graduado pela Escola DEP.
  • Flexibilidade: pode ser adaptada às necessidades individuais, utilizando uma variedade de técnicas e abordagens, incluindo o registro das vivências e sensações percebidas no corpo em desenhos espontâneos ou cartografias apropriadas.

Limitações

  • Aceitação: pode enfrentar resistência de pessoas que têm uma visão mais tradicional da psicologia e da ciência. Essa resistência poderá ou não ser atenuada conforme se sucedem as primeiras classes e o acompanhamento em pequenos grupos.
  • Evidências Científicas: embora haja estudos que apoiem a eficácia de algumas técnicas transpessoais, ainda há necessidade de mais pesquisas para validar seus benefícios de forma ampla. Por isso mesmo, a Metodologia DEP conta com Grupos de Estudo e Pesquisa, com publicações frequentes de trabalhos acadêmicos.
  • Complexidade: a integração de aspectos espirituais pode ser complexa e desafiadora, exigindo um alto nível de sensibilidade e competência por parte do terapeuta. Afinal, o eu pessoal, também denominado ego, desenvolve ao longo da vida estratégias bastante hábeis de sobrevivência. Será necessário trabalhar a tensão entre a permanência e a transcendência, pela promoção do diálogo simbólico entre as diferentes instâncias da psique.

Conclusão

A liberdade de escolha da abordagem, metodologia e técnicas terapêuticas é um direito inalienável do cliente, que precisa ser acolhido pelo terapeuta com, mais que cortesia e atenção, uma atitude amorosa, fornecendo todas as informações úteis para a decisão mais acertada possível que atenda caso a caso. Essa atitude poderá gerar confiança mútua e minimizar episódios de transferência e contratransferência, tão comuns especialmente nas sessões iniciais. Tudo será esclarecido e negociado com o cliente, de forma que o cliente e o terapeuta acessem sua inteireza para que qualquer escolha se baseie não só em informações objetivas, como local, preço, modalidades de pagamento, número de sessões no mês, mas também nos indicativos das subjetividades envolvidas no contrato terapêutico e a garantia de sigilo e ética.

Uma vez iniciada a terapia, convém que de tempos em tempos uma ou mais sessões sejam destinadas à autoavaliação e à avaliação do processo em curso, o que possibilitará manutenção ou suspensão de procedimentos. Alguns, ainda que eficazes em muitos casos, não se adequam à individualidade do cliente ou às restrições do próprio terapeuta, que poderá encaminhar o cliente a algum colega ou a outro tipo de terapia mais indicado. Esse reajuste de rumos, se for o caso, preservará clientes e terapeuta de eventuais situações por vezes incontornáveis, pois a natureza do humano é imprevisível, por mais que o autoconhecimento venha de muitas décadas de treinamento e estudo.

Referências

BASSO, Theda e Aidda Pustilnik. Metodologia da Dinâmica Energética do Psiquismo. São Paulo: ICDEP, 2012.

___________________________. Corporificando a consciência: teoria e prática da Dinâmica Energética do Psiquismo. São Paulo: ICDEP, 2000.

BASSO, Theda e Moacir Amaral. Triângulos: estruturas de compreensão do ser humano. 2 ed. São Paulo: Theba Book, 2011.

JUNG, C.G. Fundamentos da psicologia analítica. Trad. Araceli Elman, Edgar Orth. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

NASCENTES, Paulo P. Mentoria centrada nos Ser: preparação, centramento, isomorfismo. In: WUNDERLICH, Marcos & Andréia Roma. Mentoring, coaching & advice humanizado ISOR: ferramentas holossistêmicas. São Paulo, Leader, 2013.

WILBER, Ken. A união da alma e dos sentidos: integrando ciência e religião. 10 ed. São Paulo: Cultrix, 2007.

___________. A visão integral: uma introdução à revolucionária abordagem integral da vida, de Deus, do Universo e de tudo mais. 11 ed. São Paulo: Cultrix, 2016.



[1] Professor aposentado (IL/UnB), escritor, poeta, terapeuta transpessoal com pós-graduação pela DEP e arteterapeuta pelo IJEP – Instituto Junguiano de Estudos e Pesquisa.

Um comentário:

Nazaré Laroca disse...

Parabéns, Paulo, pelo admirável trabalho! A saúde mental pede socorro; ela é o mais grave problema do nosso século!

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Enquanto me escrevo me destruo partes indizíveis reconstruo aquelas em segredo que porque não digo escancaro e criptografo num mesmo movimen...