DESMONTE
Acordei hoje com uma sensação curiosa: como se o tempo tivesse passado a noite inteira reorganizando meus ossos. Nada grave, apenas aquele aviso silencioso de que a juventude já não mora mais aqui — deixou a chave na portaria e foi embora sem fazer barulho.
Fiquei sentado na beira da cama, observando o quarto como quem observa um velho mapa. Há objetos que já não significam nada, memórias que perderam o brilho, planos que ficaram pequenos demais. O ego, claro, protesta. Ele quer tudo de volta: os músculos, as certezas, a pressa. É um sujeito teimoso, esse ego. Não aceita que a vida tem fases como as marés, e que algumas coisas simplesmente recuam.
Mas há outra presença dentro de mim, mais antiga que o próprio medo. Um velho sábio — talvez o Self, talvez apenas uma parte minha que aprendeu a falar baixo — que me olha com uma paciência infinita. Ele não discute com o ego. Apenas observa. E quando eu fico quieto o suficiente, ele diz:
“Não é perda. É passagem.”
A morte, por sua vez, não aparece como ameaça. Surge como uma vizinha educada, que bate à porta só para lembrar que o dia tem limites. Não exige nada, não apressa nada. Apenas me convida a olhar para o que realmente importa — e quase sempre descubro que é menos do que eu imaginava.
A velhice, percebo, não é um declínio. É um desmonte. Uma desmontagem lenta das ilusões, das urgências, das vaidades. E no meio desse processo, algo inesperado acontece: uma leveza. Como se eu finalmente pudesse colocar no chão tudo aquilo que carreguei por décadas sem saber por quê.
Talvez desapegar seja isso: não largar o mundo, mas deixar que ele me largue. E continuar caminhando, mesmo assim, com uma serenidade que não é resignação — é maturidade.
No fim das contas, envelhecer é aceitar que o ego não quer morrer, mas que nós não somos apenas ele. Há algo maior, silencioso, que sabe o caminho. E que não teme a noite.
MALMUNTO
Hodiaŭ mi vekiĝis kun kurioza sensacio: kvazaŭ tempo paŝadis la tutan nokton reorganizante miajn ostojn. Nenio grava, nur tiu silenta averto, ke la juneco ne plu loĝas ĉi tie — ĝi lasis la ŝlosilon en la pordistejo kaj silente foriris.
Mi restis sidiĝinta rande de la lito, observis la dormoĉambron simile al kiu observas antikvan mapon. Estas objektoj kiuj plu signifas nenion, memoroj kiuj perdis brilon, planoj tro malkreskantaj. La egoo, certe, plendas. Ĝi volas ĉion denove: muskolojn, certecojn, hasto. Ĝi estas obstina ulo, tiu egoo. Ĝi ne akceptas, ke ĉio havas fazojn kiel tajdoj, kaj ke kelkaj aferoj simple retropaŝas.
Sed estas alia ĉeesto ĉe mi, pli antikva ol la timo mem. Maljuna Saĝulo — eble memo, eble nur parto mia, kiu lernis mallaŭte paroli — kiu min rigardas kun senfina pacienco. Li ne kverelas kun l’ egoo. Nur ĝin observas. Kiam mi sufiĉe silentas, li diras:
“Ne estas perdo. Estas paso.”
La morto, siavice, ne aperas kiel minaco. Ĝi ekaperas kiel bone edukata najbarino, kiu frapas la pordon nur por memori, ke la tago havas limojn, postulas nenion, rapidigas nenion. Nur min invitas rigardi tion, kiu fakte gravas — kaj kiun mi malkovras esti malpli ol mi imagis.
Maljunaĝo, mi perceptas, ne estas deklino. Ĝi estas malmunto. Malrapida malmunto de iluzioj, urĝoj, vantemoj. Kaj meze al tiu proceso, io neatendita okazas: leĝero. Kvazaŭ mi fine povu lasi surplanke ĉion tion, kiun mi portis dum jardekoj sen scii kial.
Eble seninteresiĝi esti tiel: ne forlasi la mondon, sed permesi, ke ĝi min forlasu. Kaj daŭri marŝi, tamen, kun sereno, kiu ne estas rezigno — estas matureco.
Aŭtoris Paulo P Nascentes
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